Hoje, um amigo muito querido me ligou e compartilhou algo que havia feito muita diferença para ele.
Ele ouviu um padre falar sobre a importância de relembrarmos momentos da nossa vida em que a fé nos sustentou. Momentos difíceis em que recebemos alguma resposta. Épocas dolorosas em que nossa dor foi aliviada. Situações em que o caminho parecia completamente fechado, mas, de alguma maneira, uma passagem se abriu.
Não se tratava apenas de recordar o que aconteceu, mas de se lembrar também da sensação que acompanhou aquela experiência: o alívio, a esperança, a gratidão, a percepção de que talvez não estivéssemos sozinhos e de que algo poderia mudar.
Quando trazemos essas lembranças para o presente, especialmente enquanto enfrentamos uma dificuldade atual, começamos a sair daquele estado mental em que só conseguimos enxergar o problema. Ao nos lembrarmos de um passado em que encontramos amparo, recursos ou possibilidades, percebemos que o presente talvez também possa ter uma solução, mesmo que ainda não consigamos enxergá-la.
E sabe de quem eu me lembrei enquanto ouvia meu amigo?
Do Dr. Milton Erickson e de uma prática muito utilizada na hipnose ericksoniana para facilitar mudanças de estado: a evocação.
A evocação é uma prática que ensino em meu curso de auto-hipnose. Ela consiste em acessar uma experiência anterior na qual determinado recurso interno esteve presente e permitir que esse estado seja novamente experimentado no presente.
Não é apenas pensar intelectualmente em algo que aconteceu, é trazer o estado emocional que o corpo experimentou naquele momento, para ser revivido hoje.
Você pode entrar em um estado de concentração e pedir ao seu inconsciente que encontre uma lembrança de um momento em que experimentou aquilo de que precisa agora. Pode ser confiança, coragem, tranquilidade, perseverança, segurança, esperança ou até mesmo a sensação de estar sendo amparado.
Talvez você nem saiba conscientemente qual lembrança procurar. Nesse caso, pode simplesmente fazer uma pergunta interna:
“Em que momento da minha vida eu já experimentei esse recurso, mesmo que por alguns instantes?”
Então, permita que alguma experiência apareça.
Pode surgir uma lembrança completa, uma cena pequena, uma imagem, uma sensação corporal, uma frase, um som ou apenas uma impressão difícil de explicar. Não é necessário forçar. O trabalho começa com aquilo que o seu sistema consegue oferecer.
Suponha que você queira se sentir mais confiante diante de uma situação atual. Você pode permitir que sua mente encontre uma experiência na qual a confiança esteve presente. Talvez tenha sido uma conversa que você conseguiu conduzir, uma decisão difícil que tomou, um momento em que protegeu alguém, uma situação em que aprendeu algo novo ou simplesmente uma ocasião em que percebeu: “Eu consigo.”
Ao encontrar essa experiência, você pode se aproximar dela.
Observe o que estava vendo, ouvindo e sentindo. Perceba como seu corpo se organizava naquele momento. Como era sua postura? Como você respirava? Onde a confiança aparecia no corpo? Ela tinha temperatura, movimento, peso ou direção?
Também é possível trabalhar com as submodalidades dessa experiência, tornando a imagem mais próxima, nítida ou viva, aumentando sua intensidade ou permitindo que a sensação se espalhe. Não existe uma configuração universal. O importante é perceber quais mudanças tornam aquele recurso mais acessível e verdadeiro para você.
A evocação se torna especialmente potente quando deixamos de apenas recordar a experiência e começamos a revivê-la de forma corporal. Existe uma relação de mão dupla entre memória e emoção: nossos estados emocionais influenciam aquilo que recordamos, mas as lembranças que acessamos também podem modificar o estado emocional presente.
Quando perceber que a confiança, a esperança ou o recurso desejado está presente de maneira suficientemente viva, você pode olhar novamente para a situação atual.
O problema continua sendo o mesmo, mas você já não está olhando para ele a partir do mesmo lugar interno.
Talvez ele pareça menor. Talvez fique menos ameaçador. Talvez você perceba alternativas que antes não conseguia enxergar. Talvez ele continue difícil, mas você se reconheça mais capaz de atravessá-lo.
A mudança não acontece porque você fingiu que o problema desapareceu. Ela acontece porque ampliou o estado interno a partir do qual está observando esse problema.
Esse princípio também se aproxima de algo fundamental na abordagem ericksoniana: utilizar os recursos, as experiências e as capacidades que já existem na pessoa, em vez de tratá-la como alguém vazia que precisa receber uma solução externa.
Também é importante compreender que a memória não funciona como uma gravação perfeita do passado. Ela é uma reconstrução. Por isso, na evocação, o objetivo não é investigar se cada detalhe da lembrança aconteceu exatamente daquela maneira. O que nos interessa é o recurso emocional e corporal associado à experiência.
O recurso precisa trabalhar a favor da realidade, e não contra ela.
Atenção: existe um cuidado essencial: a ecologia do sistema.
Evocar confiança não significa ignorar limites reais. Não faz sentido evocar confiança para dirigir sem saber dirigir, para assumir riscos que não foram avaliados ou para permanecer em uma situação objetivamente perigosa.
Confiança não substitui preparo. Segurança interna não elimina a necessidade de proteção externa. Coragem não significa ausência de prudência.
Atenção: Evocação pode não ser a ferramenta adequada quando o estado emocional está muito fragilizado.
Quando estamos tomados por emoções intensas, conflitos internos ou estados de ameaça que ocupam quase todo o espaço mental, uma evocação pode não ser suficiente.
É como querer organizar uma festa em uma casa onde há objetos espalhados, pessoas brigando e alguém chorando em um dos cômodos. Não basta acender as luzes e colocar uma música bonita. Antes, talvez seja necessário compreender o que está acontecendo naquela casa.
Nesses momentos, tentar evocar rapidamente um estado positivo pode se transformar em uma maneira de silenciar aquilo que precisa ser ouvido.
Talvez seja necessário primeiro acolher a carga emocional presente, compreender os conflitos, reconhecer as partes envolvidas e descobrir o que está tirando você do centro.
Porque, quando algo nos tira do centro, nem sempre está simplesmente “dando errado”. Muitas vezes, existe uma função por trás daquela reação. Há alguma parte tentando proteger, alertar, impedir, preservar ou comunicar algo importante, mesmo que esteja utilizando estratégias antigas, intensas ou pouco funcionais.
O inconsciente não precisa ser tratado como um inimigo que deve obedecer imediatamente.
Se ele trava, resiste ou impede um movimento, vale perguntar:
“O que essa reação está tentando fazer por mim?”
Quando os conflitos mais intensos são compreendidos e a carga emocional encontra espaço para ser processada, torna-se muito mais fácil evocar recursos. Nesse momento, confiança, esperança ou tranquilidade não aparecem como uma maquiagem colocada sobre a dor. Elas podem ser experimentadas com mais totalidade e congruência.
Talvez seja isso que aquela orientação espiritual e a prática hipnótica tenham em comum.
Ambas nos convidam a lembrar que o estado atual não contém toda a nossa história.
Você não é apenas a pessoa que hoje está com medo, confusa ou sem saída. Dentro de você também existem experiências de superação, alívio, fé, coragem, proteção e abertura de caminhos.
Evocar é permitir que esse passado de recursos encontre o presente.
Não para negar a dificuldade de hoje, mas para que ela não seja observada apenas pelos olhos da parte que está sofrendo.
Às vezes, a solução ainda não apareceu.
Mas você pode se lembrar de como é estar em um estado interno no qual consegue reconhecê-la quando ela surgir.