Nem todo processo precisa voltar ao passado para produzir mudança

Durante muito tempo, a busca pela origem do problema ocupou um lugar central dentro da hipnoterapia. Diante de um comportamento, uma emoção ou uma dificuldade que se repete, parece natural perguntar: onde isso começou? O que aconteceu para que essa pessoa passasse a reagir dessa maneira?

A regressão pode ser um recurso importante. Voltar a uma experiência, compreendê-la de outra perspectiva e permitir que algo seja reorganizado pode produzir mudanças profundas. O problema não está em olhar para o passado. O problema aparece quando começamos a acreditar que toda mudança depende de encontrar uma cena, uma causa específica ou uma lembrança escondida. Isso pode limitar muito nossos resultados e causar muito sofrimento na busca por respostas, porque acabamos nos tornando uma retroescavadeira emocional num solo onde nunca vamos saber quando terminar de cavar.

Nem sempre aquilo que sustenta uma dificuldade está guardado em um único acontecimento. Às vezes, existe uma construção inteira formada por experiências, interpretações, aprendizados, necessidades emocionais e estratégias de proteção que foram se organizando ao longo do tempo.

E mais, de tanto a pessoa tentar resolver, e as vezes não conseguir, acaba gerando metaproblemas, que são os problemas decorrentes das tentativas de solução, o que piora os emaranhados.

Uma pessoa não é formada apenas por aquilo que a machucou, mas também pelas capacidades de superação.

Também existem situações em que a pessoa não precisa compreender exatamente quando tudo começou para conseguir construir uma resposta diferente no presente.

Isso não significa ignorar a dor, fingir que o passado não existiu ou tentar cobrir uma ferida com pensamentos positivos. Significa lembrar que uma pessoa não é formada apenas por aquilo que a machucou.

Dentro dela também existem capacidades, experiências de superação, conhecimentos, vínculos, valores, habilidades e estados internos que talvez estejam temporariamente inacessíveis, mas que não deixaram de existir. E quando isso é olhado, expandido e percebido como potência no “Eu de hoje”, muitas vezes o resultado desejado se apresenta não só para o que a pessoa precisa hoje, mas como recurso de cura para o “Eu do passado”, pois o “Eu de hoje” incorporado pela força do recurso de solução, ao olhar para o passado, já o enxerga de forma diferente.

Quando o trabalho terapêutico permanece concentrado apenas no problema, podemos acabar olhando para a pessoa pelo mesmo ângulo durante toda a sessão. Perguntamos quando começou, por que aconteceu, como piorou e o que ela perdeu. Tudo isso pode ser necessário em algum momento, mas também pode fortalecer a sensação de que existe algo profundamente errado que precisa ser encontrado e consertado.

Às vezes, mudar a direção das perguntas já começa a modificar a experiência.

Como essa pessoa gostaria de se sentir diante dessa situação?
O que ela precisaria encontrar dentro de si para conseguir reagir de outra maneira?
Em quais momentos da vida já demonstrou alguma parte dessa capacidade?
O que muda quando ela se imagina atravessando essa experiência com mais segurança, clareza ou autonomia?

Essas perguntas não apagam o problema. Elas apenas impedem que o problema ocupe todo o espaço interno.

Na hipnose, podemos ajudar alguém a acessar experiências que já contêm aquilo de que ela precisa. Uma lembrança de coragem, um momento de pertencimento, uma sensação de competência, a presença de alguém que transmitia segurança ou até uma imagem simbólica criada durante o transe podem se transformar em recursos importantes.

O recurso não precisa chegar como uma ordem. Ele pode ser evocado, percebido e experimentado aos poucos.

Há uma diferença entre dizer a uma pessoa que ela deve ser forte e ajudá-la a encontrar, dentro de sua própria história, experiências em que alguma forma de força já esteve presente. Há uma diferença entre mandar alguém se sentir seguro e criar condições para que seu corpo reconheça sinais reais de segurança.

A mudança não acontece apenas porque o terapeuta encontrou a frase certa. Ela acontece quando alguma coisa dentro da pessoa consegue reconhecer uma nova possibilidade como suficientemente segura, verdadeira e disponível.

Por isso, não vejo a terapia como uma escolha entre investigar o passado ou construir o futuro. Não precisamos transformar uma abordagem em inimiga da outra. Em alguns processos, será importante voltar. Em outros, será mais útil observar o presente. Em certos momentos, a pessoa precisará compreender o que aconteceu. Em outros, precisará descobrir o que pode fazer com aquilo que possui agora.

O mais importante é não colocar a técnica acima da pessoa.

Quando escolhemos previamente que todo problema será tratado por regressão, corremos o risco de conduzir a pessoa para um caminho que talvez não seja o caminho dela. Da mesma forma, quando tentamos levá-la rapidamente para uma solução, podemos ignorar partes internas que ainda precisam ser vistas, compreendidas ou protegidas.

Uma parte pode até desejar seguir em frente enquanto outra ainda acredita que mudar é perigoso. Nesse caso, evocar confiança sem escutar o medo pode criar mais conflito interno. Antes de construir um futuro diferente, talvez seja necessário compreender o que está impedindo esse movimento e qual função essa proteção está tentando cumprir.

Trabalhar com recursos não é saltar sobre a dor. É ampliar o campo de visão para que a pessoa não encontre apenas sofrimento quando olha para dentro.

Existe diferença entre permanecer preso ao problema e reconhecer o problema com respeito. Existe diferença entre investigar uma experiência e obrigar alguém a revivê-la. E existe diferença entre oferecer possibilidades e tentar empurrar a pessoa para uma mudança que seu sistema ainda não consegue sustentar.

Quando o processo respeita essas diferenças, a hipnose deixa de ser uma ferramenta utilizada apenas para procurar o que está quebrado. Ela também se transforma em uma forma de descobrir o que continua vivo, competente e disponível dentro daquela pessoa.

Talvez nem todo caminho precise começar pela pergunta “onde isso começou?”.

Às vezes, o movimento pode começar com outra pergunta:

O que existe dentro de você que pode ajudar a cuidar disso agora?”

Trabalhar com terapia é como ter uma caixa de ferramentas dentro de uma oficina. Nem tudo pode ser resolvido apenas com um martelo ou um alicate.

Quanto mais ferramentas você conhece e quanto maior é o seu domínio sobre elas, menos precisa tentar fazer uma única técnica funcionar para todas as situações. Aprender diferentes ferramentas amplia as possibilidades de ajudar, porque nem todas as pessoas, necessidades ou processos cabem dentro do mesmo método.

Ainda assim, não são as ferramentas, por si só, que conduzem a mudança. O que faz diferença é o raciocínio clínico de quem sabe observar o processo, compreender o que está acontecendo e escolher o recurso mais adequado para aquele momento.

Desenvolver esse raciocínio nos liberta da dependência das técnicas. Em vez de apenas aplicá-las, passamos a dominá-las, ajustá-las e combiná-las conforme a necessidade de cada pessoa. É aí que o terapeuta se torna artesão da própria prática, utilizando as ferramentas com criatividade, precisão e sensibilidade, sem ficar limitado às possibilidades de um único método.

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Foto de Elisangela Peraceta - Hipnoterapeuta

Elisangela Peraceta - Hipnoterapeuta

A hipnose me possibilitou aprender a olhar pra dentro e então compreender o que, muitas vezes, não conseguimos explicar apenas com palavras: emoções, conflitos, defesas, padrões e forças que atuam silenciosamente em nós.

Minha história com esse caminho nasceu de uma busca pessoal por cura e autoconhecimento. Com o tempo, essa experiência se transformou em estudo, prática e ensino.

No Todo Mundo Aqui Dentro, compartilho reflexões sobre auto-hipnose, saúde emocional e transformação interna, para ajudar cada pessoa a se observar com mais consciência, compreender o próprio funcionamento e construir uma relação mais respeitosa com tudo aquilo que existe dentro de si.

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Elisangela Peraceta - Hipnoterapeuta

A hipnose me possibilitou aprender a olhar pra dentro e então compreender o que, muitas vezes, não conseguimos explicar apenas com palavras: emoções, conflitos, defesas, padrões e forças que atuam silenciosamente em nós.

Minha história com esse caminho nasceu de uma busca pessoal por cura e autoconhecimento. Com o tempo, essa experiência se transformou em estudo, prática e ensino.

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