Dissociação consciente em hipnose: como ser terapeuta, cliente e observador de si mesmo

Quando pensamos em realizar um processo terapêutico em nós mesmos, uma dificuldade aparece quase imediatamente:

Como receber o processo e, ao mesmo tempo, conduzi-lo?

Como acessar uma emoção, uma sensação ou uma necessidade interna sem perder a capacidade de formular perguntas, escolher intervenções e acompanhar o que está acontecendo?

À primeira vista, essas funções parecem incompatíveis. Ou você vivencia a experiência, ou você a conduz.

Mas a atenção humana não precisa funcionar de maneira tão linear.

Com treino, é possível desenvolver uma forma de dissociação consciente na qual diferentes posições internas participam do mesmo processo: uma parte recebe o cuidado, outra oferece o cuidado e uma terceira observa a interação entre elas.

O que significa dissociação consciente?

Neste contexto, dissociação não significa perder a consciência, desconectar-se da realidade ou se afastar involuntariamente da experiência.

Estamos falando de uma dissociação intencional e organizada: a capacidade de reconhecer diferentes posições internas e deslocar a atenção conscientemente entre elas.

É semelhante ao que acontece quando uma pessoa percebe que está sentindo medo, mas, ao mesmo tempo, consegue observar esse medo e pensar sobre o que precisa naquele momento.

Existe a experiência.

Existe quem observa a experiência.

E pode existir também uma parte capaz de intervir, acolher ou orientar.

Na autoterapia com hipnose, esse processo pode ser aprofundado por meio de três posições principais:

  • o Eu cliente ou experiencial;
  • o Eu terapeuta;
  • o Eu observador.

Essas posições não representam pessoas diferentes dentro de você. São metáforas, formas de organizar a experiência interna e distribuir funções durante o processo.

O Eu cliente ou experiencial

O Eu cliente é a parte que vive a experiência.

É quem entra em contato com emoções, sensações corporais, lembranças, imagens, conflitos, necessidades ou movimentos inconscientes.

Essa posição não precisa saber explicar o que está acontecendo. Ela pode simplesmente perceber, sentir e responder ao processo.

Pode ser a parte que diz:

“Existe um aperto no meu peito.”

“Alguma coisa em mim está com medo.”

“Eu não sei o que isso significa, mas sinto vontade de me afastar.”

“Uma parte minha precisa ser ouvida.”

O Eu experiencial não precisa produzir uma interpretação imediata. Sua principal função é permitir que aquilo que está presente possa ser percebido.

O Eu terapeuta

Enquanto uma parte vive o processo, outra pode acessar os conhecimentos, habilidades e recursos adquiridos ao longo da formação terapêutica.

O Eu terapeuta pode formular perguntas, reconhecer padrões, oferecer sugestões, acompanhar respostas ideomotoras e escolher caminhos possíveis para a experiência.

Ele pode perguntar:

“O que essa parte gostaria que eu compreendesse?”

“De que ela precisa neste momento?”

“Existe algum recurso interno disponível para ajudá-la?”

“É seguro realizar uma intervenção aqui?”

Essa posição não precisa dominar ou controlar a experiência. Sua função não é obrigar o inconsciente a responder, mas criar condições para que algo possa ser percebido, comunicado e reorganizado.

O Eu terapeuta conduz, mas também escuta.

Ele não arrasta o processo. Ele acompanha. E intervém de forma gentil, se for necessário.

O Eu observador

Existe ainda uma terceira posição: o Eu observador.

Ele percebe o que acontece entre o Eu cliente e o Eu terapeuta.

O observador acompanha as mudanças na respiração, nas emoções, nas imagens internas, nos movimentos corporais e nas respostas que surgem durante o processo.

Ele pode perceber, por exemplo:

“Quando fiz essa pergunta, minha respiração mudou.”

“Uma parte quis responder, mas outra pareceu recuar.”

“Estou tentando encontrar uma resposta rápido demais.”

“Minha parte terapeuta começou a interpretar, mas minha parte cliente ainda precisa apenas ser acolhida.”

O Eu observador ajuda a preservar consciência, segurança e direção.

Ele cria um espaço entre aquilo que está sendo vivido e a reação automática que poderia surgir diante da experiência.

Nesse espaço, torna-se possível escolher, decidir.

A atenção pode ser distribuída

Muitas pessoas acreditam que, para entrar em transe, precisam abandonar completamente o pensamento racional.

Como se o transe exigisse desligar a consciência, perder o controle ou seguir passivamente tudo o que aparece.

Mas o transe não precisa funcionar dessa maneira.

A atenção pode ser distribuída entre diferentes funções.

Uma parte pode perceber uma sensação corporal enquanto outra formula uma pergunta. Uma parte pode acessar uma lembrança enquanto outra acompanha os limites de segurança. Uma parte pode receber uma sugestão enquanto outra avalia se ela é adequada.

Isso não significa que a pessoa esteja realizando várias tarefas independentes ao mesmo tempo. Significa que ela aprende a alternar e distribuir a atenção com mais flexibilidade.

É uma espécie de coreografia interna.

Em alguns momentos, o Eu cliente ocupa o centro.

Em outros, o Eu terapeuta se aproxima e oferece uma pergunta.

Enquanto isso, o Eu observador permanece presente, acompanhando o movimento entre os dois.

Permanecer em transe sem perder o raciocínio

Uma das consequências mais importantes desse treinamento é perceber que estar em transe não significa perder a capacidade de raciocinar.

É possível permanecer profundamente conectado à experiência interna e, ainda assim, manter discernimento, consciência e capacidade de escolha.

A pessoa pode sentir e observar.

Pode receber e conduzir.

Pode permitir que algo aconteça sem entregar completamente o controle do processo.

Isso amplia muito as possibilidades da auto-hipnose. Ela deixa de ser apenas um estado no qual a pessoa repete sugestões ou espera passivamente que alguma mudança aconteça.

Ela se transforma em um espaço de interação interna.

Um lugar onde diferentes partes podem ser percebidas, ouvidas e ajudadas.

A contribuição da terapia de partes

A terapia de partes oferece recursos importantes para desenvolver essa capacidade.

Ela parte da compreensão de que não funcionamos como um bloco único e completamente uniforme. Podemos apresentar diferentes estados, necessidades, intenções, crenças e formas de reagir.

Uma parte pode querer avançar, enquanto outra teme as consequências.

Uma parte pode desejar descansar, enquanto outra acredita que parar é perigoso.

Uma parte pode compreender racionalmente uma situação, enquanto outra continua reagindo emocional ou corporalmente como se o perigo ainda estivesse presente.

A terapia de partes cria separações metafóricas que facilitam a comunicação com esses diferentes estados do Eu.

Ao invés de dizer:

“Eu sou contraditório.”

Podemos perceber:

“Existe uma parte minha que deseja mudar e outra que ainda precisa de segurança.”

Essa mudança de linguagem cria espaço.

Em vez de combater a experiência, começamos a estabelecer uma relação com ela.

No contexto da autoterapia, a terapia de partes também ajuda a diferenciar o Eu terapeuta do Eu cliente. Isso permite que a parte que sofre não seja obrigada a encontrar sozinha a solução para o próprio sofrimento.

Ela pode ser acompanhada por outra posição interna, que possui recursos para cuidar.

Não se trata de interpretar tudo

Desenvolver essas posições não significa transformar cada sensação em uma análise complexa.

Muitas vezes, o excesso de interpretação afasta a pessoa da experiência.

O Eu terapeuta pode ficar tão preocupado em compreender, resolver ou aplicar corretamente uma técnica que deixa de ouvir o que o Eu cliente está realmente apresentando.

Por isso, o Eu observador é tão importante.

Ele pode perceber quando a condução está ficando apressada, rígida ou excessivamente intelectual.

Às vezes, a melhor intervenção não é uma explicação.

Pode ser uma pergunta.

Uma pausa.

Uma respiração.

Um gesto de acolhimento.

Ou simplesmente a autorização para que uma sensação exista por alguns instantes sem precisar ser modificada.

Uma habilidade construída com treino

Essa capacidade não surge pronta.

No início, é comum que a pessoa se identifique completamente com uma das posições.

Quando acessa o Eu cliente, pode se envolver tanto com a emoção que perde a capacidade de conduzir.

Quando acessa o Eu terapeuta, pode permanecer tão racional que não consegue realmente entrar na experiência.

Quando tenta observar, pode acabar se afastando demais daquilo que sente.

O treinamento consiste em aprender a regular a distância entre essas posições.

Aproximar-se o suficiente para sentir.

Afastar-se o suficiente para observar.

Intervir apenas o necessário para ajudar.

Com o tempo, o deslocamento entre essas posições se torna mais natural. O processo deixa de parecer uma divisão artificial e passa a funcionar como uma colaboração interna.

Quando as três posições aprendem a cooperar

O objetivo não é manter essas posições permanentemente separadas.

A separação é um recurso didático e terapêutico.

Ela nos ajuda a perceber funções que antes estavam misturadas. Depois, essas funções podem começar a trabalhar juntas.

O Eu cliente oferece a experiência.

O Eu terapeuta oferece recursos.

O Eu observador oferece consciência.

Quando essas três posições cooperam, a pessoa não precisa escolher entre sentir e pensar, entre receber e conduzir, entre mergulhar na experiência e permanecer segura.

Ela pode aprender a fazer esses movimentos dentro de um mesmo processo.

E talvez esse seja um dos maiores potenciais da auto-hipnose aplicada à autoterapia: desenvolver dentro de si não apenas a capacidade de acessar conteúdos internos, mas também a capacidade de estabelecer uma relação consciente, cuidadosa e inteligente com aquilo que se encontra.

Importante: diferenciar a dissociação consciente da dissociação involuntária, que é um transtorno. O termo não se trata de perda de consciência ou fragmentação patológica.

Quer aprender auto-hipnose e participar de um treinamento para desenvolver a dissociação consciente, com método e práticas supervisionadas? Entre em contato comigo pelo botão de contato aqui do site!

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Foto de Elisangela Peraceta - Hipnoterapeuta

Elisangela Peraceta - Hipnoterapeuta

A hipnose me possibilitou aprender a olhar pra dentro e então compreender o que, muitas vezes, não conseguimos explicar apenas com palavras: emoções, conflitos, defesas, padrões e forças que atuam silenciosamente em nós.

Minha história com esse caminho nasceu de uma busca pessoal por cura e autoconhecimento. Com o tempo, essa experiência se transformou em estudo, prática e ensino.

No Todo Mundo Aqui Dentro, compartilho reflexões sobre auto-hipnose, saúde emocional e transformação interna, para ajudar cada pessoa a se observar com mais consciência, compreender o próprio funcionamento e construir uma relação mais respeitosa com tudo aquilo que existe dentro de si.

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Elisangela Peraceta - Hipnoterapeuta

A hipnose me possibilitou aprender a olhar pra dentro e então compreender o que, muitas vezes, não conseguimos explicar apenas com palavras: emoções, conflitos, defesas, padrões e forças que atuam silenciosamente em nós.

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