Presença na auto-hipnose: observar sem invadir

Na auto-hipnose, presença é a capacidade de observar pensamentos, emoções, sensações e movimentos internos sem tentar controlá-los imediatamente.

Hoje, durante um processo de auto-hipnose, entrei em contato com uma dificuldade que estava despertando ansiedade e conflito interno.

Meu primeiro impulso foi tentar resolver. Quis organizar o que estava acontecendo, acalmar as partes envolvidas e conduzir o processo para uma solução. Mas percebi que essa pressa para agir também poderia me afastar daquilo que realmente estava acontecendo.

Então fiz algo diferente: parei de tentar conduzir cada movimento e comecei a observar.

Observar não é interpretar

Existe uma diferença importante entre observar e interpretar.

Observar é perceber uma sensação, uma imagem, um conflito ou um movimento interno sem definir imediatamente o que aquilo significa.

Interpretar é começar a criar explicações:

“Isso apareceu por causa daquilo.”

“Essa parte representa tal coisa.”

“O meu inconsciente está tentando dizer isso.”

A interpretação pode ser útil, mas, quando acontece cedo demais, pode interromper o processo. A mente consciente entra, organiza, nomeia e começa a conduzir a experiência a partir daquilo que acredita ter compreendido.

Hoje, procurei permanecer mais tempo apenas observando.

Eu não precisava entender tudo. Precisava perceber o que acontecia e permitir que o sistema continuasse se mostrando.

A dissociação como ampliação do olhar

Outro aprendizado foi perceber a importância da dissociação consciente.

Quando estamos completamente dentro de um problema, tudo parece urgente. Sentimos a emoção, reagimos a ela e enxergamos a situação apenas daquele ponto.

A dissociação permite olhar de outros níveis.

Existe quem vive a experiência, quem observa o que está sendo vivido e uma posição ainda mais ampla, capaz de perceber a relação entre as partes e o funcionamento do sistema como um todo.

Olhar de alguns níveis acima não significa abandonar a experiência ou se tornar indiferente.

Significa ampliar o campo de visão.

Em vez de enxergar apenas o conflito, começamos a perceber as necessidades, as funções e as tentativas de proteção que sustentam aquele conflito.

Sentir o movimento, em vez de apenas querer fazê-lo

Também percebi uma diferença entre querer realizar um movimento e sentir que aquele movimento deve acontecer.

A mente consciente quer resolver rapidamente. Quer aproximar partes, eliminar desconfortos e terminar o processo com uma resposta clara.

Mas o fato de eu querer que algo aconteça não significa que o sistema esteja pronto.

Durante o processo, procurei esperar até perceber que um movimento realmente surgia de dentro.

Às vezes, era uma aproximação.

Às vezes, era uma frase.

Às vezes, era apenas permanecer presente por mais algum tempo.

Quando o movimento vinha do sistema, ele não parecia uma ordem. Parecia uma continuação natural do processo.

Abrir espaço, em vez de ordenar

A forma de conduzir também fez diferença.

Em vez de dizer internamente:

“Agora isso precisa mudar.”

Procurei reconhecer:

“Existe uma necessidade aqui.”

“Que essa necessidade possa receber o cuidado necessário.”

“Que isso aconteça de uma forma segura e respeitosa para todas as partes envolvidas.”

Dar uma ordem pressupõe que já sabemos qual é a solução.

Abrir espaço reconhece o que precisa ser cuidado, mas permite que o próprio sistema encontre a melhor forma de realizar esse cuidado.

Isso é condução ecológica.

Não é obrigar uma parte a desaparecer, calar ou abandonar a função que exerce. É reconhecer que ela existe por algum motivo e permitir que novas possibilidades apareçam sem violentar aquilo que tentou proteger.

O aprendizado

O que aprendi hoje é que presença não significa controle.

Presença é conseguir permanecer diante do que acontece internamente sem fugir, sem ser completamente tomado pela experiência e sem invadir o processo com respostas prontas.

É observar antes de interpretar, e também dissociar o suficiente para enxergar o problema de diferentes níveis e perceber quando um movimento realmente quer acontecer.

É mostrar ao sistema o que precisa de cuidado, em vez de decidir antecipadamente como tudo deve se resolver.

Conduzir a si mesmo não é mandar no mundo interno, mas criar condições para que ele possa se reorganizar com segurança, respeito e tempo.

Hoje eu não precisei controlar cada etapa.

Precisei estar presente o suficiente para observar, reconhecer e permitir.

E, quando parei de tentar obrigar o processo a seguir a direção que eu imaginava, o próprio sistema começou a encontrar um caminho.

Quando falamos em observar sem invadir, também estamos falando da capacidade de reconhecer diferentes posições internas sem se perder nelas. Esse processo se relaciona com a dissociação consciente, em que uma parte vivencia, outra observa e outra pode oferecer cuidado e condução.

Leia também: Dissociação consciente

Em alguns momentos, o que surge durante a auto-hipnose pode revelar necessidades, conflitos ou intenções diferentes dentro de nós. A terapia de partes ajuda a compreender essas manifestações sem tratá-las como um problema a ser eliminado, mas como aspectos internos que precisam ser escutados e integrados.

Leia também: O que é terapia de partes e como ela pode ser utilizada na hipnose e na auto-hipnose?

Você sente que tenta controlar tudo o que acontece dentro de você?

Nem sempre é fácil observar uma emoção, um conflito ou uma reação interna sem tentar corrigir, explicar ou silenciar imediatamente.

Na hipnoterapia, você pode aprender a se aproximar dessas experiências com mais segurança, compreender o que está por trás delas e construir novas possibilidades de resposta.

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Foto de Elisangela Peraceta - Hipnoterapeuta

Elisangela Peraceta - Hipnoterapeuta

A hipnose me possibilitou aprender a olhar pra dentro e então compreender o que, muitas vezes, não conseguimos explicar apenas com palavras: emoções, conflitos, defesas, padrões e forças que atuam silenciosamente em nós.

Minha história com esse caminho nasceu de uma busca pessoal por cura e autoconhecimento. Com o tempo, essa experiência se transformou em estudo, prática e ensino.

No Todo Mundo Aqui Dentro, compartilho reflexões sobre auto-hipnose, saúde emocional e transformação interna, para ajudar cada pessoa a se observar com mais consciência, compreender o próprio funcionamento e construir uma relação mais respeitosa com tudo aquilo que existe dentro de si.

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A hipnose me possibilitou aprender a olhar pra dentro e então compreender o que, muitas vezes, não conseguimos explicar apenas com palavras: emoções, conflitos, defesas, padrões e forças que atuam silenciosamente em nós.

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