Por que eu travo mesmo querendo mudar? Quando a mente entende, mas o corpo não acompanha.

Existem pessoas que chegam à terapia sabendo explicar muito bem o que acontece com elas.

Elas conhecem a própria história, identificam suas crenças, compreendem a origem de determinados medos e conseguem perceber racionalmente que algumas reações já não fazem sentido no presente.

Ainda assim, continuam travadas.

A mente compreende, mas o corpo contrai.
A pessoa sabe que pode avançar, mas paralisa.
Reconhece que está segura, mas sente medo.
Deseja se expor, trabalhar, criar ou tomar uma decisão, mas alguma coisa dentro dela reage como se avançar ainda fosse perigoso.

Isso acontece porque nem tudo o que nos impede está organizado em pensamentos que podem ser acessados apenas pela reflexão.

O trauma não permanece apenas como uma história

Em Trauma e memória, Peter Levine explica que parte importante da experiência traumática permanece como memória processual.

A memória processual não é necessariamente uma lembrança consciente e organizada daquilo que aconteceu. Ela se manifesta por meio de:

  • sensações corporais;
  • contrações e tensões musculares;
  • alterações na respiração;
  • impulsos de aproximação ou afastamento;
  • movimentos interrompidos;
  • mudanças de postura;
  • reações automáticas de luta, fuga, congelamento ou colapso;
  • sentimentos e comportamentos que surgem antes que a pessoa consiga compreendê-los.

Por isso, alguém pode saber cognitivamente que está seguro e, ao mesmo tempo, ter um corpo reagindo como se ainda estivesse diante de uma ameaça.

A pessoa não está necessariamente escolhendo ter medo, fugir ou paralisar. Seu organismo pode estar reproduzindo uma resposta protetora que foi aprendida em outro momento e que continua sendo ativada automaticamente.

O corpo pode estar contando uma história que ainda não chegou às palavras

Durante muito tempo, a terapia valorizou principalmente aquilo que a pessoa conseguia contar, explicar, interpretar e compreender.

Tudo isso é importante. O problema aparece quando o terapeuta escuta apenas a narrativa e deixa de observar o que acontece no corpo enquanto essa narrativa é contada.

Às vezes, as informações mais importantes aparecem quando:

  • a respiração fica presa;
  • o olhar se desvia;
  • os ombros se contraem;
  • as mãos perdem a força;
  • surge uma vontade de empurrar, correr ou se esconder;
  • o corpo endurece;
  • aparece um tremor, um calor, um frio ou uma náusea;
  • a pessoa diz que está bem, mas seu corpo demonstra medo ou desligamento.

Peter Levine destaca que trabalhar com memórias traumáticas exige o acompanhamento cuidadoso dessas respostas. Gestos, microexpressões, mudanças posturais, alterações respiratórias e sinais autonômicos podem revelar processos que ainda não estão disponíveis à consciência racional.

Isso não significa interpretar rapidamente cada sensação ou concluir que todo desconforto é trauma. Significa desenvolver curiosidade pelo que o organismo está comunicando.

Em vez de perguntar apenas:

“O que você pensa sobre isso?”

O terapeuta também pode perguntar:

“O que acontece no seu corpo enquanto você fala sobre isso?”

“Onde você percebe essa sensação?”

“Existe algum movimento que seu corpo parece querer fazer?”

“Essa sensação pede aproximação, afastamento, proteção ou pausa?”

Eu compreendia muita coisa, mas continuava travada

Eu fiz anos de terapia tentando liberar travas e bloqueios.

Consegui compreender muitas coisas sobre a minha história. Identifiquei padrões, reconheci crenças, encontrei explicações e desenvolvi uma consciência muito maior sobre mim mesma.

Mas, durante muito tempo, essa compreensão não se transformou em mudanças concretas.

Eu sabia racionalmente o que precisava fazer, mas não conseguia fazer. Sabia que algumas situações não representavam um perigo real, mas meu corpo reagia como se representassem. Quanto mais eu tentava vencer essas respostas apenas pelo pensamento, mais parecia entrar em conflito comigo mesma.

Os resultados começaram a se materializar na minha vida quando parei de olhar apenas para o que estava no nível cognitivo e comecei a compreender a linguagem traumática do meu corpo.

Em vez de tratar minhas reações como falta de disciplina, resistência ou fraqueza, comecei a observar:

Do que o meu corpo está tentando me proteger?

O que ele percebe como perigoso?

Que resposta ficou interrompida?

O que ele precisa experimentar para reconhecer que agora existe outra possibilidade?

Foi quando compreendi que, em alguns momentos, eu não precisava de mais uma explicação. Meu corpo precisava de uma experiência diferente.

E, à medida que aprendi a escutá-lo sem obrigá-lo, a respeitar seus limites e a ajudá-lo a reconhecer recursos no presente, comecei a transformar compreensão em ação. As mudanças deixaram de existir apenas dentro da minha cabeça e começaram a aparecer nas minhas decisões, no meu trabalho e naquilo que eu conseguia construir concretamente.

O objetivo não é fazer a pessoa reviver o trauma

Levine deixa claro que renegociar uma memória traumática não significa simplesmente reviver tudo o que aconteceu.

O trabalho começa pela criação de presença, segurança, ancoragem e relativa calma no aqui e agora. A pessoa aprende a perceber sensações agradáveis, neutras e difíceis sem ser completamente dominada por elas.

A partir dessa base, o processo acontece gradualmente:

  1. A pessoa encontra ancoragem e recursos no presente.
  2. Aprende a alternar entre sensações de segurança e sensações difíceis.
  3. A memória processual pode surgir como sensação, postura, imagem ou impulso corporal.
  4. Uma resposta protetora que ficou interrompida pode ser reconhecida e, com cuidado, encontrar alguma forma de conclusão.
  5. O organismo recupera gradualmente mais equilíbrio e regulação.
  6. A experiência corporal pode ser integrada às memórias emocionais, episódicas e narrativas, ocupando seu lugar no passado.

O terapeuta, portanto, não força uma recordação nem procura arrancar uma história escondida. Ele ajuda a pessoa a permanecer suficientemente presente para perceber o que acontece em seu organismo sem ser arrastada novamente para a experiência traumática.

A mente precisa compreender, mas o corpo também precisa atualizar a experiência

Não se trata de escolher entre trabalhar com a mente ou trabalhar com o corpo.

O cognitivo ajuda a nomear, compreender, organizar, atribuir sentido e construir uma narrativa. O corpo mostra como aquela experiência continua sendo vivida no presente.

Quando essas duas dimensões são integradas, a pessoa não apenas entende que o perigo passou. Ela começa, gradualmente, a sentir que está no presente, que possui recursos e que agora pode responder de outra maneira.

Às vezes, o cliente já compreendeu quase tudo.

O que ainda falta não é outra explicação. É ajudar seu organismo a sair de uma resposta antiga de sobrevivência e experimentar, com segurança, uma nova possibilidade de ação.

Porque algumas travas não se desfazem apenas quando encontramos as palavras certas.

Elas começam a se desfazer quando aprendemos a escutar o que o corpo vem tentando dizer e oferecemos os recursos corretos e tratamentos especializados para ajudar o nosso corpo a encontrar a segurança que ele precisa.

E se o seu corpo estiver tentando dizer alguma coisa?

Se você compreende racionalmente seus medos e bloqueios, mas ainda assim:

  • paralisa quando precisa agir;
  • sente o corpo enrijecer ou perder as forças;
  • apresenta náuseas, tremores, falta de ar ou tensão sem compreender por quê;
  • sabe que está seguro, mas seu corpo reage como se estivesse em perigo;
  • repete padrões que já tentou mudar apenas pela reflexão;
  • sente que existe algo dentro de você impedindo seus movimentos;

considere procurar um tratamento que não olhe apenas para seus pensamentos, mas que também inclua o corpo.

Esses sinais não significam necessariamente que exista um trauma, mas merecem ser observados com cuidado. Procure um profissional qualificado que saiba trabalhar com sensações corporais, respostas de defesa e regulação emocional sem forçar lembranças nem conduzir você a reviver experiências dolorosas.

Às vezes, você já compreendeu a história. O que falta é ajudar seu corpo a perceber que agora existe segurança, apoio e uma nova possibilidade de resposta.

Se esse bloqueio aparece principalmente na sua vida profissional, leia também: Ansiedade que paralisa: quando trabalhar começa a parecer impossível.

Vamos conversar?

Se você se sente travado e não consegue agir como antes ou sente bloqueios internos que não te permitem seguir em frente, podemos conversar para compreender o que está acontecendo e avaliar se este acompanhamento faz sentido para você.

Você não precisa saber explicar tudo. Podemos começar pelo que seu corpo faz e pelo que você deseja recuperar.

Clique: Quero conversar sobre o que estou vivendo

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Foto de Elisangela Peraceta - Hipnoterapeuta

Elisangela Peraceta - Hipnoterapeuta

A hipnose me possibilitou aprender a olhar pra dentro e então compreender o que, muitas vezes, não conseguimos explicar apenas com palavras: emoções, conflitos, defesas, padrões e forças que atuam silenciosamente em nós.

Minha história com esse caminho nasceu de uma busca pessoal por cura e autoconhecimento. Com o tempo, essa experiência se transformou em estudo, prática e ensino.

No Todo Mundo Aqui Dentro, compartilho reflexões sobre auto-hipnose, saúde emocional e transformação interna, para ajudar cada pessoa a se observar com mais consciência, compreender o próprio funcionamento e construir uma relação mais respeitosa com tudo aquilo que existe dentro de si.

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A hipnose me possibilitou aprender a olhar pra dentro e então compreender o que, muitas vezes, não conseguimos explicar apenas com palavras: emoções, conflitos, defesas, padrões e forças que atuam silenciosamente em nós.

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