A maioria de nós aprende a conduzir outras pessoas, porque esse costuma ser o foco das formações em hipnose.
Aprendemos a observar sinais, fazer perguntas, acompanhar respostas, aprofundar estados, conduzir técnicas e ajudar alguém a encontrar uma solução.
Mas quase ninguém ensina como fazer tudo isso em si mesmo.
Por isso, no início, a autoaplicação pode parecer estranha:
“Como eu vou estar em transe e, ao mesmo tempo, conseguir me guiar em um processo terapêutico?”
Se estou voltado para o meu mundo interno, acessando emoções, memórias, conflitos e experiências difíceis, como também vou observar o que acontece, formular perguntas, regular a intensidade e conduzir o processo?
Como entrar nessa experiência sem ser completamente engolido por ela?
A resposta está no desenvolvimento da capacidade de controlar a própria dissociação.
É aprender a ser, ao mesmo tempo, quem acessa a experiência e quem observa, conduz e cuida do processo.
Dissociação não é simplesmente se desligar
Quando muitas pessoas escutam a palavra dissociação, pensam imediatamente em alguém desconectado, ausente ou fora da realidade.
Mas, no contexto hipnótico, a dissociação pode assumir outra função.
Ela permite que elementos da experiência sejam percebidos separadamente.
Você pode sentir uma emoção e, ao mesmo tempo, observá-la.
Pode perceber um pensamento sem precisar obedecer a ele.
Pode acessar uma memória sem estar completamente preso dentro dela.
Pode permitir que uma mão responda antes que a mente racional formule uma resposta.
Pode conversar com uma parte interna sem precisar acreditar que aquela parte representa tudo o que você é.
Dissociar, nesse contexto, não significa necessariamente se dividir ou se fragmentar.
Significa diferenciar experiências que antes pareciam misturadas demais para serem compreendidas.
Uma coisa é dizer:
“Eu sou fraco.”
Outra é perceber:
“Existe uma parte de mim que está se sentindo fraca neste momento.”
Uma coisa é dizer:
“Eu não vou conseguir.”
Outra é observar:
“Existe um estado dentro de mim no qual eu não consigo enxergar uma saída.”
Essa diferença parece pequena, mas muda completamente a posição da pessoa diante da própria experiência.
Quando você acredita que é a emoção, fica preso nela.
Quando consegue observá-la como parte de uma experiência interna, começa a recuperar a possibilidade de agir.
Quem sente e quem observa
Na auto-hipnose, uma parte da atenção pode estar absorvida no que acontece internamente, enquanto outra permanece capaz de acompanhar o processo.
Você sente, mas também percebe que está sentindo.
Você entra na experiência, mas continua observando a intensidade.
Você escuta uma parte interna, mas ainda consegue avaliar se é seguro continuar.
Não se trata de eliminar a emoção para pensar com clareza.
Também não se trata de ficar distante, frio ou desconectado.
Trata-se de desenvolver a capacidade de permanecer presente enquanto diferentes estados acontecem dentro de você.
Eu posso entrar em contato com uma emoção sem entregar a ela todo o espaço da minha consciência.
Posso sentir medo e, ainda assim, perceber que existe em mim uma parte capaz de avaliar a situação.
Posso acessar tristeza sem concluir que toda a minha vida é tristeza.
Posso encontrar uma parte ferida sem permitir que ela fale em nome de todo mundo aqui dentro.
Essa é uma das capacidades mais importantes na auto-hipnose terapêutica.
Não apenas entrar em transe, mas conseguir mudar de posição dentro do próprio transe.
Em alguns momentos, você ocupa o lugar de quem sente.
Em outros, o de quem observa.
Também pode ocupar o lugar de quem pergunta, quem oferece recurso, quem protege e quem interrompe o processo quando percebe que ultrapassou um limite.
A experiência de automaticidade
A dissociação também aparece nos fenômenos hipnóticos em que alguma resposta parece acontecer sem esforço consciente.
Uma mão pode começar a se mover.
Um dedo pode sinalizar uma resposta.
Uma palavra pode surgir antes de ser racionalmente construída.
Uma imagem pode aparecer de maneira espontânea.
A pessoa sabe que aquilo está acontecendo nela, mas não sente que está produzindo cada etapa de forma deliberada.
É justamente isso que torna os movimentos ideomotores tão interessantes.
Nem toda resposta precisa passar primeiro pelo raciocínio consciente.
A mente pode organizar informações, reconhecer padrões e produzir sinais antes que a pessoa consiga explicar racionalmente o que percebeu.
Isso não significa que exista uma entidade separada comandando o corpo.
Significa que há processos internos acontecendo fora do controle consciente imediato.
Na auto-hipnose, podemos aprender a observar esses processos, fazer perguntas e utilizar as respostas como parte de uma investigação interna.
Mas resposta inconsciente não é sentença divina.
Um movimento ideomotor não deve ser tratado como verdade absoluta.
É uma resposta interna que precisa ser observada, contextualizada e, quando necessário, questionada.
Entrar em transe não é desaparecer
Existe uma ideia equivocada de que quanto mais profundamente a pessoa entra em uma experiência, melhor será o processo.
Nem sempre.
Profundidade sem capacidade de observação pode virar apenas absorção.
A pessoa acessa uma emoção, entra em uma memória, revive uma dor e perde completamente a posição de quem poderia conduzir aquilo.
Uma boa capacidade dissociativa não é medida apenas pelo quanto você consegue entrar.
Ela também é medida pela liberdade que você possui para se aproximar, se afastar, mudar de posição e retornar.
Você precisa conseguir perceber quando a experiência ficou intensa demais.
Precisa saber recuperar o contato com o corpo, com o ambiente e com o momento presente.
Precisa reconhecer quando está perdendo clareza.
Precisa conseguir interromper.
Precisa saber voltar.
A habilidade não está em mergulhar até o fundo a qualquer custo.
Está em conseguir mergulhar sem abandonar a superfície.
Dissociação hipnótica e dissociação clínica não são a mesma coisa
Também é importante não misturar fenômenos diferentes.
Na hipnose, a dissociação pode ser utilizada de forma intencional, estruturada e reversível. A pessoa aprende a aproximar-se de uma experiência, observá-la por outra perspectiva e depois retornar ao seu estado habitual.
Já a dissociação relacionada a sofrimento psíquico ou trauma pode acontecer de maneira automática, involuntária e desorganizada. Nesses casos, a pessoa pode perder contato com partes da experiência, da memória, do corpo ou da própria continuidade interna.
O objetivo da auto-hipnose não é ensinar alguém a se desligar ainda mais de si.
É exatamente o contrário.
É desenvolver mais consciência sobre o que acontece internamente.
É transformar uma resposta automática em uma capacidade de aproximação, afastamento e retorno.
Para algumas pessoas, especialmente aquelas que apresentam episódios dissociativos intensos, perda de memória, desorientação ou desorganização emocional, tentar conduzir processos profundos sozinho pode não ser seguro.
Saber fazer auto-hipnose também significa saber quando não continuar sozinho.
A memória não é uma gravação
Outro cuidado importante aparece quando falamos sobre acessar memórias.
Entrar em transe e visualizar uma cena com intensidade não significa que cada detalhe seja historicamente exato.
A mente não funciona como uma câmera guardando arquivos intactos.
Memórias podem ser incompletas, reconstruídas e influenciadas por emoções, expectativas e interpretações.
Por isso, uma experiência que surge em auto-hipnose deve ser tratada como uma experiência interna significativa, não como uma prova automática de que algo aconteceu exatamente daquela forma.
Muitas vezes, o mais importante não é descobrir se cada detalhe é literal.
É compreender o que aquela cena representa, qual emoção carrega e como continua influenciando a vida da pessoa no presente.
Onde a auto-hipnose realmente começa
A auto-hipnose começa a ficar interessante quando deixa de ser apenas um áudio pronto.
Quando deixa de ser apenas relaxamento.
Quando deixa de ser repetição de frases positivas.
Ela começa a ganhar profundidade quando a pessoa aprende a investigar, observar e cuidar do próprio mundo interno com estratégia.
Quando consegue perceber que uma parte sente medo, mas outra ainda pode pensar.
Que uma parte quer desistir, mas outra pode perguntar do que ela precisa.
Que uma parte está presa a uma experiência antiga, enquanto outra já possui recursos que naquela época ainda não existiam.
A auto-hipnose não depende apenas da capacidade de entrar em transe.
Depende da capacidade de continuar presente enquanto diferentes experiências acontecem dentro de você.
É entrar sem desaparecer.
Sentir sem se afogar.
Observar sem abandonar.
Conduzir sem silenciar.
E aprender a ser, ao mesmo tempo, quem vive a experiência e quem oferece cuidado a todo mundo aqui dentro.