Quando a afirmação não tem base pra se sustentar
A auto-hipnose que a maioria das pessoas conhece é aquela prática em que você ouve um áudio com sugestões para um objetivo específico, como relaxamento, bem-estar, positividade ou confiança. Também pode acontecer por meio de um estado de transe no qual a própria pessoa repete afirmações como: “Eu sou forte”, “Eu sou confiante” ou “Eu me amo”.
Isso pode ser útil? Claro que sim. Mas, infelizmente, muitas vezes o estado evocado não se sustenta por muito tempo.
E sabe por quê?
Porque podem existir conflitos internos, crenças e experiências de vida que se opõem fortemente ao que está sendo afirmado. Nesse caso, é como passar maquiagem sobre uma ferida aberta: pode até disfarçar por algum tempo, mas não transforma aquilo que está acontecendo por baixo.
Uma pessoa pode repetir inúmeras vezes que é confiante, mas, internamente, ainda carregar experiências de humilhação, rejeição ou medo. Pode dizer que se ama, enquanto uma parte dela continua acreditando que não merece ser amada. Pode afirmar que está segura, embora seu corpo continue reagindo como se estivesse diante de uma ameaça.
Isso não significa que a afirmação seja ruim ou que a pessoa esteja fazendo algo errado. Significa apenas que existe um conflito interno que precisa ser compreendido e trabalhado, e não silenciado por uma frase positiva.
Quando as afirmações podem fazer muito sentido
Esse tipo de afirmação funciona muito bem quando é usado como compounding, ou seja, como um reforço que vem depois de uma ressignificação.
A pessoa passou por uma transformação real, na qual conseguiu compreender determinada experiência, reorganizar uma crença ou construir uma relação mais respeitosa consigo mesma. Depois desse processo, ela pode afirmar com congruência que se ama, que se respeita e que, a partir daquele momento, essa será uma verdade cultivada de forma constante.
Nesse caso, a afirmação não está tentando criar uma realidade artificial. Ela está fortalecendo uma mudança que já começou a acontecer internamente.
Quando as afirmações, mesmo fora de um estado de transe, são transformadoras
Mas existe outra situação em que as afirmações podem ser profundamente úteis: nos momentos em que a dor, o medo ou o desespero fazem a pessoa esquecer verdades importantes sobre si mesma e sobre sua própria realidade.
Quando estamos emocionalmente abalados, nossa percepção pode ficar reduzida. A atenção se concentra apenas naquilo que falta, no que ameaça, no que deu errado ou no que parece impossível de resolver. É como se toda a realidade desaparecesse e sobrasse apenas o problema.
Nesses momentos, uma afirmação não precisa tentar convencer você de que está tudo bem.
Ela pode apenas ajudá-lo a enxergar aquilo que a dor está deixando de fora.
Em vez de dizer:
“Está tudo bem.”
Você pode dizer:
“Eu estou passando por uma situação difícil, mas ainda tenho recursos para lidar com ela.”
Em vez de afirmar:
“Eu não tenho medo.”
Você pode reconhecer:
“Eu estou com medo, mas posso caminhar devagar e encontrar o próximo passo.”
Em vez de repetir:
“Eu sou forte o tempo todo.”
Você pode dizer:
“Eu estou cansado, mas ainda posso cuidar de mim.”
Essas frases não negam a realidade. Elas a completam.
A dificuldade é verdadeira, mas os seus recursos também são.
O medo é verdadeiro, mas a sua capacidade de se regular também pode ser.
A solidão pode ser real, assim como a possibilidade de construir alguma segurança dentro de si enquanto o apoio externo não chega.
Talvez você gostaria de ter alguém ao seu lado, uma família mais presente ou um lugar seguro onde pudesse descansar emocionalmente. Reconhecer essa falta é muito diferente de transformar a ausência disso em uma prova de que você não conseguirá continuar.
Uma afirmação mais congruente poderia ser:
“Eu gostaria de ter apoio. Sinto falta disso. E, enquanto esse apoio não está disponível, posso aprender a me acolher e a construir um pouco de segurança dentro de mim.”
Perceba que não há uma tentativa de negar a necessidade de outras pessoas ou de romantizar a solidão. Existe apenas o reconhecimento de que, diante da realidade atual, você ainda pode fazer algo por si mesmo.
Esse é um uso muito mais cuidadoso e realista das afirmações na auto-hipnose.
Elas podem funcionar como uma reorientação da atenção. Em vez de permitir que a mente permaneça presa apenas à ameaça, à dor ou à falta, você a convida a considerar outras verdades que também fazem parte daquele momento.
Você pode estar enfrentando dificuldades financeiras e, ao mesmo tempo, ainda ter possibilidades de ação.
Pode estar emocionalmente abalado e ainda possuir ferramentas para se regular.
Pode não saber como resolver tudo e, ainda assim, ser capaz de encontrar o próximo passo.
Pode desejar profundamente um colo e, enquanto ele não existe fora, oferecer alguma presença e cuidado a si mesmo.
Nesse contexto, a afirmação não precisa criar uma nova verdade. Ela pode apenas resgatar uma verdade que ficou temporariamente escondida pelo sofrimento.
Isso é diferente de pensamento positivo vazio.
Não se trata de obrigar a mente a acreditar que tudo dará certo, mas de ajudá-la a sair de uma visão estreita, na qual apenas o pior parece existir.
Uma afirmação bem construída reconhece a dor e, ao mesmo tempo, abre espaço para o recurso:
“Isso está sendo difícil, mas eu não estou completamente sem saída.”
“Eu não preciso resolver a minha vida inteira hoje. Preciso apenas cuidar deste momento.”
“Eu posso sentir tudo isso sem me abandonar.”
“Eu não preciso estar sem medo para começar.”
“Mesmo sem ter todas as respostas, ainda posso dar um passo possível.”
Talvez sejam justamente esses os momentos em que as afirmações mais podem ajudar: quando existem verdades importantes que precisam voltar a ser consideradas.
Não para maquiar uma ferida, apagar um conflito ou fingir que a realidade é diferente.
Mas para lembrar que a dor nunca é a única coisa que existe dentro de você.
A capacidade de se autorregular, enxergando além do estado emocional do momento
Esse uso das afirmações também exige o desenvolvimento de um olhar interno mais amplo. Em vez de se perceber como alguém que possui um único estado, uma única verdade ou uma única forma de reagir, você começa a reconhecer que existem diferentes partes, sentimentos, necessidades e possibilidades acontecendo dentro de você.
Uma parte pode estar com medo, enquanto outra ainda consegue pensar com clareza. Uma parte pode acreditar que não dará conta, enquanto outra conhece os recursos que você já desenvolveu. Uma parte pode estar cansada e querendo desistir, enquanto outra entende que você não precisa resolver tudo agora, apenas encontrar um passo possível.
Perceber essas diferenças não significa dividir ainda mais a mente, mas deixar de permitir que o estado mais doloroso daquele momento fale em nome de tudo o que você é.
Quando o medo assume o primeiro plano, ele pode fazer parecer que não existe coragem. Quando a tristeza se intensifica, pode parecer que nenhuma esperança ainda está presente. Mas aquele estado é uma parte da experiência, não a experiência inteira.
Desenvolver esse olhar é aprender a considerar todo mundo aqui dentro.
É perceber que os estados internos podem mudar, que a atenção pode ser deslocada e que outras partes de você também podem ser acessadas. A afirmação, então, não serve para silenciar a parte que sofre, mas para ajudá-la a escutar outras verdades internas que talvez não consiga perceber sozinha naquele momento.
Em vez de dizer ao medo que ele não deveria existir, você pode reconhecer:
“Existe uma parte de mim com medo, e existe também uma parte que sabe que posso caminhar com cuidado.”
Em vez de tentar expulsar o cansaço, pode considerar:
“Uma parte de mim está exausta, mas outra pode me ajudar a escolher o que é realmente necessário agora.”
Isso torna a afirmação mais congruente, porque ela não obriga toda a sua experiência interna a concordar com uma frase. Ela amplia a conversa dentro de você e cria espaço para que outros recursos também possam participar.