Por que nos anulamos e como voltar a ocupar nosso espaço interno
A autoanulação em uma relação acontece quando começamos a abandonar desejos, necessidades, projetos, limites e percepções para preservar o vínculo com o outro.
No começo, isso nem sempre parece autoanulação. Pode parecer amor, parceria, cuidado, lealdade ou adaptação.
Cedemos uma vontade para evitar conflito. Adiamos um projeto para ajudar. Silenciamos uma necessidade para não perder o vínculo. Olhamos tanto para o que o outro sente, pensa e precisa que, aos poucos, deixamos de nos consultar.
O Eu não desaparece de uma vez. Ele vai cedendo pequenos espaços.
Adia uma vontade.
Silencia uma necessidade.
Duvida da própria percepção.
Espera mais um pouco.
Até que, em algum momento, já não conseguimos lembrar com clareza quem somos fora daquela relação.
Por que deixamos de ser nós mesmos para viver em função do outro?
Isso pode acontecer quando alguma parte nossa acredita que:
- para ser amada, precisa se adaptar;
- para não ser abandonada, precisa ser necessária;
- para preservar o vínculo, não pode desagradar;
- o caminho do outro é mais importante;
- ocupar o próprio espaço pode ser interpretado como egoísmo;
- dizer “não” pode colocar a relação em risco.
Nem sempre o outro exige isso conscientemente. Às vezes, ele se beneficia da dinâmica sem perceber. Em outros casos, não consegue sustentar nossa autonomia, nossos limites ou nosso crescimento.
E nós, com medo de perder o lugar na vida do outro, começamos a ceder o lugar que ocupávamos dentro de nós.
Cada pequena renúncia parece suportável isoladamente. Mas a perda do Eu acontece devagar.
Quando percebemos, já estamos vivendo em função de manter a relação e quase não sabemos mais o que queremos fora dela.
A gente não deixa de ser quem é porque ama demais. Deixa de ser quem é quando começa a acreditar que precisa desaparecer um pouco para continuar sendo amado.
Quando uma perda desorganiza tudo por dentro
Às vezes, uma perda provoca uma dor que parece insuportável.
Não apenas porque alguém foi embora ou porque alguma coisa terminou, mas porque aquela relação ocupava um espaço interno tão grande que o nosso próprio Eu foi ficando sem lugar.
Sem perceber, podemos organizar nossos pensamentos, sentimentos, escolhas, projetos e até a percepção do nosso valor em torno de uma pessoa, de um vínculo ou de um futuro imaginado.
Quando essa referência desaparece, não perdemos apenas algo externo.
Também se desfaz toda uma organização interna construída ao redor dela.
Algumas experiências se parecem com uma espécie de transe. Dentro delas, criamos um mundo feito do que vivemos, do que imaginamos, do que esperamos e do futuro que acreditamos estar construindo.
Nesse mundo, diferentes partes nossas encontram funções e maneiras de existir.
Existe a parte que sonha.
A parte que confia e se entrega.
A parte que cuida e protege.
A parte que tenta compreender.
A parte que se sente acompanhada.
A parte que organiza o futuro.
Quando esse mundo se desfaz, essas partes não desaparecem. Elas ficam confusas, tristes e sem saber o que fazer na nova realidade.
Por isso, aquilo que chamamos simplesmente de dor pode ser uma grande bagunça formada por experiências diferentes.
Uma parte sente falta do que perdeu.
Outra sente falta de quem conseguia ser naquele contexto.
Outra perdeu o futuro que imaginava.
Outra está assustada porque não sabe como a vida funcionará agora.
Outra tenta manter tudo em pé.
E existe também uma parte que reconhece o espaço que se abriu e começa, silenciosamente, a procurar quem éramos antes de nos deixarmos de lado.
Quando o vazio também revela a nossa ausência
No início, o espaço deixado pela perda parece conter apenas a falta daquilo que se foi.
Mas, aos poucos, podemos perceber outra ausência:
a nossa.
Talvez a dor seja tão intensa porque, quando procuramos dentro de nós um lugar seguro para voltar, descobrimos que passamos muito tempo sem construí-lo.
Procuramos fora porque ainda não conseguimos nos encontrar por dentro.
Essa descoberta pode ser dolorosa, mas também pode marcar o início do retorno.
A falta nos obriga a olhar para nós.
Começamos a recordar o que desejávamos, o que sabíamos fazer, o que nos dava alegria, quais eram os nossos valores e o que havíamos deixado para depois.
Recuperamos a própria voz, reconhecemos capacidades esquecidas e percebemos que algumas partes nossas não morreram.
Elas apenas estavam sem espaço para existir.
O vazio que parecia ser apenas a falta de alguém pode, devagar, transformar-se em espaço para o nosso retorno.
Podemos observar a obra sem morar nos escombros
Imagine que exista uma obra dentro de você.
Quando estamos no centro dela, em meio à poeira, ao barulho e às estruturas quebradas, parece que a destruição ocupa tudo.
Sentimos apenas a ausência, a confusão e a impressão de que nada mais pode ser feito.
Mas, em alguns momentos, podemos subir um pouco.
De um lugar mais alto, começamos a enxergar as partes tentando sustentar aquilo que permaneceu em pé.
Vemos as colunas quebradas, mas também percebemos estruturas firmes. Notamos o espaço que ficou vazio e aquilo que poderá ser reconstruído nele, quando chegar a hora.
Se conseguirmos nos afastar um pouco mais, veremos que a obra não é toda a paisagem.
Ao redor dela ainda existem caminhos, pessoas, projetos, desejos, capacidades e outras formas de vida acontecendo.
Isso não significa fugir da dor, negar a perda ou fingir que nada aconteceu.
Significa lembrar que não precisamos permanecer completamente imersos nela o tempo todo.
Podemos entrar na obra quando alguma parte precisar ser ouvida e, depois, subir novamente para respirar e recuperar a visão do todo.
Ouvir cada parte separadamente pode ser uma forma de dar pontos na costura de um coração rasgado.
Como voltar a ocupar o próprio espaço
Priorizar-se não significa tornar-se indiferente, egoísta ou incapaz de contribuir.
Significa não se retirar da própria vida para sustentar alguma coisa fora de si.
Talvez seja importante perguntar, de tempos em tempos:
Quanto espaço eu ainda ocupo dentro de mim?
Estou contribuindo porque escolho ou me abandonando para que algo continue existindo?
Aquilo que estou sustentando também sustenta alguma coisa em mim?
Minhas necessidades, meus projetos, meus limites e minhas percepções continuam tendo lugar?
Estou participando de uma construção ou desaparecendo dentro dela?
Contribuir não deveria significar anular-se.
Cuidar não deveria exigir que deixemos de nos cuidar.
Estar ao lado de alguém não deveria significar sair do próprio lugar.
Nem sempre percebemos que estamos nos perdendo enquanto isso acontece. Muitas vezes, é somente quando alguma coisa termina que enxergamos quanto de nós havia ficado para trás.
Mas perceber não serve apenas para lamentar.
Serve para começar a voltar.
O retorno acontece quando uma vontade volta a ser ouvida.
Quando uma escolha passa novamente por nós.
Quando um projeto esquecido recebe atenção.
Quando deixamos de tratar nossas necessidades como obstáculos.
Quando recuperamos o direito de existir sem pedir desculpas pelo espaço que ocupamos.
Uma relação precisa conter dois Eus
Uma relação saudável precisa ser construída por duas pessoas capazes de permanecer presentes dentro de si enquanto amam.
Não precisam ser perfeitas. Mas precisam ter espaço para desejos, limites, projetos, sentimentos e escolhas próprias.
O encontro deveria ampliar a vida dos dois, e não exigir que um deles deixe de existir para caber na vida do outro.
Talvez o coração não volte a ser exatamente como era antes. Mas isso não significa que ficará para sempre aberto e sangrando.
A costura acontece cada vez que uma parte é escutada, cada vez que recuperamos algo que sempre foi nosso e cada vez que nos incluímos novamente na própria vida.
Quando não é possível evitar a dor da perda, talvez o caminho não seja tentar apagá-la.
Talvez seja encontrar um lugar interno seguro de onde possamos senti-la sem nos transformar inteiramente nela.
Entrar na obra quando algo precisar ser cuidado.
Subir quando a poeira impedir a visão.
E lembrar que, para além dos escombros, ainda existe uma vida inteira acontecendo.
E um Eu que, pouco a pouco, está voltando para casa.
Quando passamos muito tempo nos anulando, o corpo também pode aprender que se posicionar, escolher ou ocupar espaço é perigoso. E, mesmo quando decidimos mudar, ele pode continuar travando diante de situações importantes. Leia também: Quando o corpo trava, mas a vida precisa continuar
Vamos conversar?
Se você percebe que está se anulando, perdendo espaço dentro de si ou vivendo em função do outro, podemos conversar para compreender o que está acontecendo e avaliar se este acompanhamento faz sentido para você.
Você não precisa chegar com tudo organizado. Podemos começar pelo que você sente, pelo que tem se repetido e pelo que deseja recuperar em si.