Quando o manejo terapêutico machuca em vez de acolher

Como o autocuidado emocional do terapeuta influencia empatia, presença e manejo clínico diante da dor do cliente.

Ao ler Peter Levine falando sobre trauma, uma ideia me chamou profundamente a atenção: a crítica à forma como algumas abordagens terapêuticas colocam a pessoa traumatizada numa posição solitária, como se ela precisasse simplesmente controlar sentimentos, administrar comportamentos e corrigir pensamentos disfuncionais.

É claro que pensamentos, emoções e comportamentos importam. Mas quando falamos de trauma, especialmente de TEPT, estamos diante de algo mais profundo do que uma dificuldade cognitiva ou uma falta de disciplina emocional.

Estamos diante de um sistema nervoso tentando sobreviver.

Quando a técnica vira distância

Muitas vezes, o terapeuta aprende técnicas, protocolos, modelos de intervenção e formas de condução. Isso é necessário. Mas existe um risco silencioso: usar a técnica para se proteger do contato real com a dor do cliente.

Quando a dor do outro nos toca em lugares que ainda não conseguimos reconhecer em nós, podemos tentar apressar o processo, ou pior – acabar invalidando a dor da pessoa.

Podemos querer que o cliente entenda rápido, ressignifique rápido, regule rápido, mude rápido.

E, sem perceber, podemos transformar a sessão num lugar onde a pessoa traumatizada sente novamente que precisa se ajustar para não incomodar.

Frases como “você precisa controlar isso”, “você precisa mudar esse pensamento”, “você precisa fazer mesmo sem vontade” podem até ter alguma intenção positiva. Mas, para um sistema nervoso em ameaça, podem soar como abandono.

Não porque toda orientação seja errada. Mas porque, sem presença, a orientação vira pressão.

O terapeuta diante da própria ferida

O trecho de Levine conversa com uma imagem antiga e poderosa: a do curador ferido.

Não no sentido romantizado de que o terapeuta precisa sofrer para ser bom. Também não significa que o terapeuta deve expor sua história pessoal ao cliente ou transformar a sessão em algo sobre si mesmo.

A questão é mais delicada. Um terapeuta que nunca olhou para a própria dor pode ter dificuldade de permanecer presente diante da dor do outro.

Ele pode interpretar defesa como sabotagem.
Pode confundir congelamento com resistência.
Pode ver colapso como falta de vontade.
Pode tratar proteção como problema.
Pode tentar levar o cliente para a solução antes que o corpo dele tenha encontrado segurança.

E aqui nasce uma pergunta fundamental para quem trabalha com processos terapêuticos:

Eu consigo permanecer regulado diante da dor do outro ou eu preciso conduzi-lo rapidamente para fora dela porque algo em mim não suporta ficar ali?

Essa pergunta não é acusatória. É clínica. É ética. É humana.

Auto-hipnose como recurso para autoterapia

Para o terapeuta, a auto-hipnose pode ser uma prática de formação interna.

Ela permite que o profissional aprenda a observar seu próprio mundo interno: suas dores, conflitos, dificuldades, traumas, padrões de comportamento e respostas emocionais. A partir dessa percepção, torna-se possível desenvolver um autocuidado mais assertivo, profundo e responsável.

Um profissional que cuida, mas que também se permite receber cuidado, tende a atuar com mais congruência, presença e sensibilidade em suas práticas. Além disso, há algo profundamente transformador na experiência de conseguir olhar para si, trabalhar suas próprias questões e perceber mudanças reais acontecendo internamente.

Antes de conduzir alguém por um território emocional delicado, o terapeuta precisa conhecer algo dos seus próprios territórios internos.

Não para se tornar perfeito, “zerar” suas feridas ou nunca mais ser tocado pelo sofrimento do outro, mas para desenvolver um nível de presença realmente mais profundo.

Presença é diferente de técnica.
Presença é diferente de interpretação racional, que leva ao julgamento.
Presença é diferente de solução rápida.

Presença é a capacidade de estar com aquilo que emerge sem invadir, sem abandonar e sem empurrar. Através da presença é que se abre “o portal” para que a solução flua mais facilmente!

O conforto clínico diante da dor

Quando falo em conforto, não me refiro a achar a dor confortável. Dor não é confortável.

Falo de outro tipo de conforto: o conforto interno do terapeuta em manejar campos emocionais difíceis sem entrar em defesa.

É a capacidade de perceber:

“Algo em mim quer apressar esse cliente.”
“Algo em mim quer dar uma resposta pronta.”
“Algo em mim está desconfortável com essa impotência.”
“Meu corpo também reagiu.”
“Preciso me regular para não conduzir a partir da minha própria defesa.”

Esse tipo de consciência muda a clínica.

Porque o terapeuta deixa de olhar para o cliente como alguém que precisa ser corrigido e passa a vê-lo como alguém cujo sistema aprendeu a se proteger.

Mesmo quando a proteção custa caro.
Mesmo quando trava a vida.
Mesmo quando parece irracional.
Mesmo quando incomoda o próprio cliente.

A pergunta deixa de ser apenas: “como faço essa pessoa mudar?”

E passa a ser também:

“Como ofereço segurança suficiente para que esse sistema não precise mais se defender do mesmo modo?”

Trauma não se resolve por invasão

Um dos grandes ensinamentos das abordagens somáticas é que o trauma precisa ser tocado em doses possíveis.

Não se trata de jogar o cliente novamente dentro da dor.
Não se trata de provocar catarse.
Não se trata de arrancar lembranças.
Não se trata de vencer a resistência à força.

O sistema nervoso traumatizado não precisa de mais invasão. Ele precisa de segurança, ritmo, contato, escolha e possibilidade.

Na Somatic Experiencing, Peter Levine fala sobre titulação e pendulação: tocar pequenas porções da ativação e retornar para recursos, presença e orientação no aqui e agora.

Esse princípio é precioso também para a auto-hipnose.

A pessoa não precisa mergulhar no abismo inteiro. Ela pode tocar uma borda. Perceber uma sensação. Reconhecer uma defesa. Conversar com uma parte. Voltar. Respirar. Reorganizar.

Pequenas doses podem produzir grandes reorganizações quando o sistema se sente seguro.

O terapeuta como ambiente

Todo terapeuta é também um ambiente.

A voz do terapeuta é ambiente.
O ritmo é ambiente.
A pressa é ambiente.
O olhar é ambiente.
A forma como ele lida com silêncio é ambiente.
A forma como ele reage ao sofrimento do cliente é ambiente.

E o corpo do cliente percebe.

Antes de concordar racionalmente, o sistema nervoso do cliente escaneia:
“Estou seguro aqui?”
“Vou ser julgado?”
“Vão me empurrar?”
“Vão me abandonar?”
“Vão me forçar a sentir o que ainda não consigo?”
“Posso existir como estou?”

Por isso, o trabalho interno do terapeuta não é detalhe. É parte da intervenção.

Um terapeuta mais regulado oferece mais segurança.
Um terapeuta mais consciente de si invade menos.
Um terapeuta que reconhece suas próprias feridas tende a ser menos arrogante diante das feridas do outro.

Auto-hipnose, empatia e responsabilidade clínica

O trabalho com auto-hipnose pode ajudar o terapeuta a desenvolver empatia encarnada.

Não aquela empatia apenas mental, onde eu imagino o que o outro sente. Mas uma empatia mais profunda, onde eu reconheço no corpo a complexidade das defesas humanas.

Quando o terapeuta trabalha consigo mesmo, ele entende melhor que nem toda trava é falta de vontade.
Nem toda repetição é escolha.
Nem toda evitação é preguiça.
Nem toda resistência é oposição ao tratamento.

Às vezes, aquilo que chamamos de resistência é uma parte tentando garantir sobrevivência.

E quando o terapeuta compreende isso em si, ele se torna mais cuidadoso com o outro.

Conclusão

A cura não acontece apenas porque o terapeuta sabe conduzir uma técnica. Ela acontece também porque existe um campo de segurança suficiente para que o cliente não precise se proteger da própria terapia.

E esse campo começa dentro do terapeuta.

A auto-hipnose unida a autoterapia nesse sentido, é mais do que uma ferramenta de autotransformação. É uma prática de maturidade clínica.

Ao olhar para si, reconhecer suas defesas, tocar suas feridas com cuidado e aprender a se regular diante da própria dor, o terapeuta se torna mais capaz de acompanhar o sofrimento do outro sem pressa, sem medo e sem violência disfarçada de técnica.

Talvez essa seja uma das grandes tarefas de quem cuida: não usar o conhecimento para se afastar da dor, mas desenvolver presença suficiente para permanecer humano diante dela.

Porque antes de conduzir alguém para fora do trauma, o terapeuta precisa se tornar, dentro de si, um lugar onde a dor possa ser encontrada sem ser novamente abandonada.

Tudo o que escrevo nasce da prática: da minha experiência com a hipnose, dos aprendizados que fui integrando ao longo do caminho e, principalmente, dos meus processos constantes de autocuidado emocional. Espero que contribua com “todo mundo aí dentro de você”.

Esta gostando do conteúdo? Compartilhe:

Facebook
Twitter
Telegram
WhatsApp
Foto de Elisangela Peraceta - Hipnoterapeuta

Elisangela Peraceta - Hipnoterapeuta

A hipnose me possibilitou aprender a olhar pra dentro e então compreender o que, muitas vezes, não conseguimos explicar apenas com palavras: emoções, conflitos, defesas, padrões e forças que atuam silenciosamente em nós.

Minha história com esse caminho nasceu de uma busca pessoal por cura e autoconhecimento. Com o tempo, essa experiência se transformou em estudo, prática e ensino.

No Todo Mundo Aqui Dentro, compartilho reflexões sobre auto-hipnose, saúde emocional e transformação interna, para ajudar cada pessoa a se observar com mais consciência, compreender o próprio funcionamento e construir uma relação mais respeitosa com tudo aquilo que existe dentro de si.

Mais posts
Foto de Elisangela Peraceta - Hipnoterapeuta

Elisangela Peraceta - Hipnoterapeuta

A hipnose me possibilitou aprender a olhar pra dentro e então compreender o que, muitas vezes, não conseguimos explicar apenas com palavras: emoções, conflitos, defesas, padrões e forças que atuam silenciosamente em nós.

Minha história com esse caminho nasceu de uma busca pessoal por cura e autoconhecimento. Com o tempo, essa experiência se transformou em estudo, prática e ensino.

No Todo Mundo Aqui Dentro, compartilho reflexões sobre auto-hipnose, saúde emocional e transformação interna, para ajudar cada pessoa a se observar com mais consciência, compreender o próprio funcionamento e construir uma relação mais respeitosa com tudo aquilo que existe dentro de si.

Mais posts