“Você está acessando uma emoção… Em duzentos metros, vire à esquerda. Memória difícil encontrada. Siga em frente com cautela. Atenção: conteúdo interno não sinalizado na via. Recalculando rota, trauma bloqueando a passagem… Quando possível, reduza a velocidade emocional e faça um retorno seguro ao momento presente.”
Se a auto-hipnose tivesse GPS, talvez ele passasse boa parte do tempo dizendo: recalculando rota.
Nós fazemos isso o tempo todo. Temos um objetivo, criamos um percurso e iniciamos a viagem. “Hoje eu quero trabalhar essa emoção.” “Quero compreender por que repito esse comportamento.” “Quero mudar essa resposta.” “Quero ressignificar essa experiência.” Destino selecionado, rota calculada, e lá vamos nós.
Só que, no meio do caminho, você encontra alguma coisa que não estava no mapa. Pode ser uma emoção que não esperava, uma lembrança, uma reação no corpo ou uma parte interna que responde de uma maneira completamente diferente daquela que você imaginava. De repente, percebe: eu não estava preparado para encontrar isso, muito menos para mexer nisso.
É justamente nesse momento que algumas pessoas cometem um erro importante. Acreditam que, porque encontraram alguma coisa, precisam necessariamente fazer alguma coisa com ela. Resolver, mudar, ressignificar, liberar, transformar. Como se toda viagem interna precisasse terminar com uma equipe de obras entrando no inconsciente, quebrando parede, trocando encanamento e anunciando: “Pronto. Trauma reformado. Pode entrar.”
Não é assim.
Às vezes, você chega a um lugar interno onde ainda não é possível fazer mudanças, seja porque essas mudanças, podem não ser ecológicas ao seu sistema ou envolvem emaranhados complexos, ou talvez precisem que uma nova estrutura interna seja construída, e isso pode levar mais tempo… ou até mesmo, você não sabe como resolver. Quando isso acontece, o ideal é apenas observar, sem pressa e com a mente aberta a perceber todas as informações que podem estar disponíveis. E observar genuinamente já pode ser terapêutico. Você pode simplesmente perceber o que encontrou e começar a investigar como aquilo está organizado dentro de você.
Enquanto você silencia e observa, respostas podem vir, mesmo que perguntas não sejam claramente feitas, mas o olhar curioso, traz as respostas. Quando essa resposta aparece? O que parece ativá-la? Com quais outras experiências ela se relaciona? O que essa parte tenta fazer? Do que ela parece proteger você? Como isso foi sendo construído ao longo do tempo?
Talvez você ainda não tenha respostas, e tudo bem. Em auto-hipnose, você pode pedir ao inconsciente que permita mais clareza sobre aquilo que está sendo observado e aguardar, sem pressionar, sem exigir uma resposta imediata, sem transformar cada silêncio em resistência e cada ausência de resposta em fracasso.
Talvez a compreensão apareça naquele momento. Talvez surja uma imagem, uma sensação, uma associação ou uma palavra. Ou talvez nada aconteça naquele instante. Ainda assim, algo importante pode ter começado, porque nem toda viagem é feita para realizar uma obra. Algumas viagens são feitas para estudar o terreno.
Você observa a geografia, percebe onde existem caminhos, onde o terreno parece instável, onde há construções antigas, quais lugares se conectam e o que parece sustentar o quê. Talvez descubra que aquilo que pretendia mudar não está isolado, mas relacionado a outras experiências, outras respostas e outras partes de você.
Nesse momento, insistir no destino original pode não ser a melhor escolha. Então, recalculando rota. Talvez o objetivo daquela experiência deixe de ser mudar e passe a ser compreender. Talvez você perceba que ainda não precisa tocar naquela memória, apenas reconhecer que ela existe. Talvez não seja o momento de ressignificar uma emoção, mas de permitir que ela seja observada sem julgamento pela primeira vez. Talvez aquela parte interna não precise ser corrigida. Talvez precise, antes, ser escutada e compreendida.
Nós não vamos conseguir mudar ou ressignificar tudo o que queremos em uma única experiência de auto-hipnose, e talvez nem devêssemos tentar. Existe uma diferença entre conduzir um processo e forçar um destino. A capacidade de condução também está em perceber quando a rota que você planejou já não corresponde ao terreno que encontrou.
Então você observa, pergunta, escuta, aguarda, compreende um pouco mais e, só depois, talvez em outra experiência, com mais recursos e mais clareza, decide qual caminho deseja percorrer. Essa atitude contribui demais pro aumento do raciocínio clínico.
Curiosamente, às vezes, apenas ser capaz de observar uma experiência interna de forma genuína e sem julgamento permite que muita coisa comece a se reorganizar. Sem marreta, sem reforma, sem a obrigação de produzir uma grande transformação. Porque ser visto também modifica a relação que temos com aquilo que existe dentro de nós.
Por isso, o mapa de uma auto-hipnose não precisa terminar sempre em “problema resolvido”. Às vezes, o destino pode ser apenas: “Agora eu compreendo melhor.” Ou: “Agora eu consigo olhar para isso.” Ou ainda: “Agora eu sei que isso existe e posso escolher quando e como quero me aproximar novamente.”
Isso também é percurso. Isso também é cuidado. Isso também é auto-hipnose terapêutica, a exploração do seu mundo interno, com o autocontrole do seu Eu observador.
Talvez, em algumas viagens internas, a resposta que você precisava não fosse chegar a um lugar novo. Talvez fosse apenas conseguir permanecer, por alguns instantes, diante do lugar onde chegou, sem fugir, sem julgar e sem começar uma obra. Apenas compreendendo o terreno.
E então, quando estiver pronto, recalculando rota. 🧭